Representantes de criadores citam estratégia para baixar preço da carne

por Igor_Cruz — publicado 19/04/2016 15h14, última modificação 19/04/2016 15h14
Em depoimento à CPI, criadores afirmam haver desconfiança em relação às balanças...

 

Quatro representantes de criadores foram ouvidos até a noite de segunda-feira (18) pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar a possível formação de cartel dos frigoríficos de abate de bovinos em Rondônia. Eles disseram aos deputados estar nítida a estratégia para baixar o preço da carne no Estado e lançaram desconfianças em relação às balanças utilizadas por frigoríficos.

O presidente da CPI, Adelino Follador (DEM), explicou que a comissão foi criada porque no final de 2015 houve na Assembleia Legislativa uma audiência pública para tratar do preço da carne, mas os representantes dos frigoríficos não compareceram.

“Havia denúncias de formação de cartel, mas acreditávamos que tudo poderia ser resolvido conversando. Como os empresários não compareceram, os deputados que estavam na audiência assinaram o pedido de formação de CPI para investigar o que está acontecendo”, destacou Follador.

Coube ao relator, Lazinho da Fetagro (PT), iniciar os questionamentos, perguntando se os depoentes acompanhavam o preço pago pela carne em Rondônia e nos demais Estados, e se acreditavam que está havendo formação de cartel.

O presidente do Sindicato dos Pecuaristas de Porto Velho (Sinpec), Wesley Villaça; o representante da Associação dos Proprietários Rurais de Rondônia (Aprro), Homero Cambraia; o consultor Alex Sandro Guatolini, de Cacoal; e o pecuarista Erli José Garcia, de Itapuã do Oeste, também afirmaram que o gado de Rondônia é tão bom quanto o de São Paulo.

Villaça lembrou que os diretores de frigoríficos alegam que o mercado é que regula os valores, mas afirmou que em Rondônia a situação não é essa. “Quando tem monopólio fica fácil controlar o preço”, destacou, citando que a empresa JBS tem um grande número de plantas frigoríficas no Estado, sendo responsável pela metade dos abates.

Alex Sandro Guatolini disse que em maio e junho de 2015 houve uma queda acentuada no preço da carne no Estado. “Somente em Rondônia caiu. Houve a desculpa de perda do mercado externo. Acontece que nos demais lugares não houve redução nos valores”, reclamou.

Erli Garcia afirmou que acompanha diariamente como está o preço da carne e que não há explicação aceitável para a situação em Rondônia. “Tem dia em que na Bahia a arroba é comprada a R$ 167,00, enquanto aqui o preço pago pelos frigoríficos é R$ 116,00”, exemplificou.

O deputado José Lebrão (PMDB), membro da comissão, indagou se os produtores acham que estão sendo lesados no peso do boi. O parlamentar também perguntou como é a qualidade da carne produzida em Rondônia.

Homero Cambraia disse que fica com “um pé atrás”. Ele mostrou um relatório acompanhado de fotografias de seu rebanho, explicando que os animais são de excelente padrão, mas não são bem avaliados.

“Eu peso na minha fazenda, mas no frigorífico os animais são considerados mais leves, e ainda dizem que a minha balança está errada. Entrei em contato com a direção do frigorífico uma vez, me enviaram algumas correspondências, mas não deu em nada. Naquela ocasião houve uma diferença de preço de R$ 6 mil”, afirmou.

Alex Sandro Guatolini explicou que o rendimento oscila, e que não vale a pena abater no dia em que grandes criadores vendem uma quantidade maior de gado aos frigoríficos. Segundo ele, em ocasiões assim sempre há queda de preço.

Ele contou que estava abatendo em um frigorífico, em determinada ocasião, quando a balança principal queimou. Alex Sandro disse que sempre há uma balança sobressalente, que não é utilizada.

“O responsável pelo setor não estava, mas consegui convencer a atendente a pesar na balança sobressalente. O peso aumento muito. Ficou bom demais. Mas logo chegou o responsável e mandou parar. Determinou que se esperasse consertar a balança principal e que ela fosse calibrada. Então o peso caiu de novo”, relatou Alex Sandro.

O deputado Ribamar Araújo (PR), membro da CPI, perguntou aos depoentes se a instalação de um frigorífico municipal, em Porto Velho, poderia ajudar a regular o preço da carne. Para o parlamentar, poderia ser um frigorífico que não visasse lucros, sendo que o preço seria fechado entre o proprietário do açougue e o criador.

Wesley Villaça disse que qualquer iniciativa é válida. Apesar disso, ele afirmou ser contra a estatização. “Acredito que o melhor caminho é incentivar as plantas pequenas, que já existem”, declarou.

O deputado Adelino Follador afirmou que o melhor caminho é agir como no Mato Grosso, onde foi criado o Instituto da Carne, que instalou balanças nos frigoríficos. Como o criador só vende onde tem balança do instituto, todas as plantas frigoríficas aceitaram a instalação.

“Essas balanças funcionam como uma caixa preta de avião. Permanecem lacradas e nem o frigorífico nem o produtor têm acesso aos mecanismos”, explicou Follador.

 

ALE/RO - DECOM - [Geovani Berno]

Foto: José Hilde



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